Jataí Cerrado Infinito

Seguindo Abelhas

O ano é 2053, e a população mundial vem diminuindo drasticamente, pois muitas plantas usadas para produzir alimentos, as mais abundantes e comuns, repentinamente começaram a entrar em extinção, já que as abelhas que as polinizavam estavam desaparecendo. O uso indiscriminado de agrotóxicos e espécies transgênicas nas lavouras, sob o pretexto de produzir alimentos, foi o que matou as abelhas e, ironicamente, instaurou a fome e a subnutrição no cotidiano das pessoas. O que tinha pra se comer era uma ração a base de milho, arroz e aditivos sintéticos, um alimento nada agradável. A saúde de todos havia se tornado extremamente frágil. Tosse constante, fraqueza, sonolência durante o dia, insônia durante a noite, manchas na pele, já nem eram consideradas sintomas de doenças, de tão comuns. Os remédios eram muito caros, pois as plantas usadas para produzi-los eram difíceis de cultivar e raras de se encontrar. Tudo isso aumentou muito os índices de mortalidade. Com a diminuição drástica da população os sobreviventes acabaram se reunindo em algumas regiões, as que tinham melhores recursos naturais, deixando outras completamente abandonadas.

Mogi das Cruzes era uma das cidades que acabou abrigando a população remanescente, principalmente as pessoas que vinham de São Paulo, fugindo da falta de alimento, água e do excesso de contaminação química. Praticamente todos os empregos eram, agora, voltados para a escassa produção de alimentos, e as pessoas andavam pelas ruas feito zumbis, arqueadas, cansadas, entregues ao sofrimento. Esqueceram-se de como era ser saudável.

Susan era uma dessas pessoas. Trabalhava numa fábrica de processamento de arroz. Um dia, indo para o trabalho, lhe chamou a atenção um sujeito andando muito rápido na rua. Tinha disposição e energia muito acima do comum. Carregava uma caixa térmica pendurada no ombro, mantendo sempre a postura ereta e a cabeça erguida, com um fôlego surpreendente. Curiosa, desviou-se de sua rota para ver aonde ele ia. Ficou ainda mais intrigada quando percebeu que se tratava de um homem bastante idoso. Ele entrou em uma casa antiga, aparentemente abandonada e, após alguns minutos, saiu tomando o rumo de volta, ainda mais rápido que antes, deixando a porta aberta. Ela olhou para os lados e resolveu entrar. Lá dentro havia potes com ervas e plantas diversas, como se fosse uma loja de plantas medicinais. E o perfume era muito agradável.

– Bom dia – disse uma senhora, sorrindo para Susan.

– Bom dia. – respondeu Susan, entrecortando a fala com sua tosse rotineira – Desculpe entrar assim (cof), mas fiquei curiosa. Aqui é uma farmácia?

– Mais ou menos. Precisa de alguma coisa?

– Fiquei curiosa com aquele senhor que acabou de sair. Tão saudável e disposto!

– Ah, sim, seu Nemésio. Ele doa o mel que recolhe.

Ouvir aquilo era estranho para Susan, pois mel era um produto extremamente raro e caro, algo incomum de se ver vendendo em pequenas farmácias, quanto mais doado desse jeito.

– Doa mel?

– Sim, – respondeu a mulher – mel de Jataí.

– Jataí?

– É uma espécie de abelha nativa.

– E ainda existem abelhas? (cof) Pensei que tivessem sido extintas.

– Nem todas. Algumas sobreviveram. A Jataí é uma abelhinha bem especial, consegue se adaptar melhor que muitas outras.

– Quanto é o mel de Jataí?

– Não está a venda, não. Fazemos isso apenas para ajudar as pessoas. Para auxiliar nesses dias difíceis. Mas não cobramos nada por isso. O mel de jataí é medicinal, alivia a tosse e melhora o sistema imunológico. Você parece ser uma boa moça. Tome, leve um potinho pra experimentar, vai lhe fazer bem, temos bastante aqui – disse, entregando o mel para Susan.

Ela agradeceu e seguiu para o trabalho levando o mel. À noite, ao chegar em casa, experimentou e gostou muito do sabor. Ficou imaginando como é que aquele senhor conseguia produzir esse mel. Passou a tomar um pouquinho todo dia e, alguns dias depois, os outros trabalhadores começaram a notar que ela estava mais bonita, corada. Saudável. E, realmente, sentia-se assim. Foi então que percebeu que a tosse tinha desaparecido por completo, e lembrou-se do que aquela mulher havia lhe dito sobre o mel de Jataí.

No dia que o mel acabou, saiu mais cedo para o trabalho a fim de visitar aquela farmácia novamente. Mas, antes de chegar, viu seu Nemésio já voltando de lá e preferiu segui-lo, tentando manter uma distância para não ser notada. Ele pegou um ônibus e Susan correu para entrar no mesmo, disposta mesmo a faltar no trabalho. O ônibus saiu da cidade indo, por um tempo, pela rodovia principal. Depois entrou em uma estradinha antiga, esburacada. Seu ponto final coincidia com o final do asfalto e o início de um trecho só de terra. Ele desceu e seguiu a pé pela estrada. Ela continuou o acompanhando à distância. A vegetação era abundante e aquele silêncio entrecortado pelo canto das cigarras e dos passarinhos era revigorante. De repente o homem saiu da estrada e entrou na mata. Susan o seguiu por um tempo até perder sua pista. Logo, percebeu que ela havia se perdido. Depois de algumas horas, quando estava a ponto de se desesperar, decidiu sentar e respirar fundo para se acalmar e pensar direito. Sabia que, a partir daquele momento, precisaria fazer daquele lugar sua casa, ou não sobreviveria. E assim o fez. Como já estava anoitecendo, achou um canto para repousar entre as raízes de uma grande e antiga árvore.

Jataí Cerrado infinito

Acordou no dia seguinte quando o sol começava a aparecer. Alguns mosquitinhos zanzando pra lá e pra cá a incomodavam. Pareciam vir de uma árvore próxima. Aproximou-se e percebeu que eles saíam por um minúsculo furinho no tronco da árvore. Achou aquele comportamento bastante curioso e, ao investigar melhor, um pedaço da casca soltou-se em sua mão, mostrando que o tronco estava oco. Lá dentro havia alguns discos feitos de uma espécie de cera. Apanhou um pedaço de galho e os cutucou para ver o que era. Para sua surpresa, deles emanava o mesmo cheiro do mel que aquela senhora lhe dera, e confirmou isso assim que o experimentou. Não eram mosquitos, afinal, mas sim abelhas, e pareciam traçar uma rota bem específica no ar. Susan as seguiu até chegar a um lugar com muitas flores, de todos os tipos e tamanhos. No meio desse lugar, uma casinha velha de madeira, muito simples. Aproximou-se da casa e bateu na porta.

Após acordar na mata e seguir as abelhas Jataí até uma parte mais florida da floresta, Susan viu uma antiga casa de madeira e resolveu aproximar-se e bater na porta.
– Já vai – disse uma voz vinda de dentro.
A porta se abriu e seu Nemésio apareceu.
– Bom dia! – Disse Susan.
– Bom dia – disse o homem, estranhando a visita.
– Desculpe incomodá-lo. É o senhor quem produz mel?
– Sim, senhorita. Mas o mel que produzo não é o que você conhece.
– O mel que conheço é de uma abelhinha bem miudinha chamada Jataí.
Seu Nemésio fez uma expressão de surpresa. Afinal, quem era essa moça tão interessada em suas amadas abelhas?
– Pois, ora, é isso mesmo! Não quer entrar um pouco? Fique à vontade.
– Bom, já perdi o dia de trabalho mesmo. Porque não? Meu nome é Susan.
– Prazer. Nemésio.
– Muito prazer, senhor Nemésio.
A casa era bem simples, mas bastante iluminada e arejada. O ar fresco que entrava através das amplas janelas, os sons da mata, o aroma das flores, tudo lhe transmitia uma paz que ela não se lembra de já ter sentido antes.
– Sabe Susan, muitas abelhas nativas não existem mais. As Jataí são algumas das poucas que restaram. Penso que quando chegar a minha hora toda essa floresta que vê aqui ao redor vai acabar desaparecendo.
– Como assim? Por causa da extinção das abelhas?
– Sim. A Mamangava, por exemplo, é a única abelha que pode polinizar a flor do maracujá. Se entrar em extinção, o maracujá desaparece junto. E já faz quase um ano que não encontro sequer uma! Ela é preta, grande assim, e vive sozinha. As pessoas a matam, achando que é um besouro.
– Puxa vida, não sabia disso.
– É por isso que estou aqui – disse seu Nemésio. – Esse é o único recanto que conheço no planeta onde ainda existe uma boa quantidade de abelhas nativas. Fora daqui estão sendo exterminadas pelos pesticidas e agrotóxicos. Mas as pessoas estão tão desesperadas com a fome e as doenças que acham que preservar lugares como esse é perda de tempo. Só pensam em plantar trigo, milho e arroz. Vivemos dias sem esperança…
– Estou chocada! Não imaginava que a situação fosse tão grave assim.
– Mas é…
Apesar das tristes notícias, Susan passou um tempo agradável na casa de seu Nemésio. Almoçou ali e despediu-se em seguida, após ouvir a indicação de como retornar à estrada de terra. Caminhou pensativa, observando os insetos, pássaros e plantas do caminho, até que passou por um besouro grande voando lento e lembrou-se do que ele lhe dissera sobre a abelha mamangava. Olhou de perto e, realmente, o inseto mais parecia uma abelha gigante do que um besouro.
– Será que é a tal da abelha do maracujá? – pensou em voz alta.
Seguiu o inseto até ele pousar numa flor belíssima, a mais bonita que ela jamais vira. Tinha pétalas de diversos formatos, grandes atrás e finas no alto, e um perfume igualmente maravilhoso. Brotava de uma trepadeira em uma árvore que, apesar de parecer uma planta nova, já tinha uma fruta, mesmo sendo as frutas extremamente raras em 2053. Susan já havia visto o maracujá em fotos, e o reconheceu. Logo que tocou nele, a fruta soltou-se em sua mão. Decidiu então voltar para a casa de seu Nemésio para lhe mostrar o achado.
– Que coisa maravilhosa! – Disse seu Nemésio quando viu a fruta madura – Há quanto tempo não via um maracujá!
– Trouxe para o senhor.
– Oh, minha filha! Muito agradecido. Vou preparar algumas mudas dessas sementes. Mas, antes, que tal um suco? Já experimentou suco de maracujá?
– Nunca experimentei fruta nenhuma, não senhor. Quem me dera! Dizem que é muito bom.
– Não há nada melhor nesse mundo!
Seu Nemésio preparou o suco e o adoçou com um pouquinho de mel. Susan ficou maravilhada com o sabor. Ele a convidou para retornar outro dia a fim de levar algumas mudas e plantá-las em sua casa, e ela assim o fez. Plantou-as nos fundos de seu quintal, onde tinha um pouco de terra e um pouco de sol. As plantas cresceram rápido e, em poucos meses, floresceram. Mas as flores murcharam sem dar frutos, e Susan já temia que isso fosse acontecer, já que não havia nenhuma abelha mamangava por perto. Quando visitou seu Nemésio novamente, viu que seus maracujás já haviam produzido algumas frutas. Queria mesmo, no fundo de seu coração, viver cercada de plantas, flores, frutos e tudo mais que a natureza pudesse oferecer. Mas na cidade, naqueles tempos, seria muito difícil.
Logo o tempo de seu Nemésio chegou. Ele não tinha parentes próximos, e acabou deixando tudo para Susan, todo aquele pedaço de floresta. Susan entendeu, então, que ele havia depositado toda sua esperança nela, graças ao interesse dela pelas abelhas e plantas. Não tinha escolha: Precisava continuar o trabalho dele para que aquele raro recanto no planeta não desaparecesse. E foi assim que fez, até o final de sua vida, com muita alegria e fé no futuro. Nesse processo, conheceu diversos grupos de pessoas que já cuidavam das abelhas, espalhados pelo Brasil. Graças a esses grupos muitas espécies que seu Nemésio pensava terem sido extintas ainda existiam, além da Jataí e da Mamangava. Abelhas essenciais para todo o ecossistema, como a Mandaçaia, a Iraí, a Tubuna, a Borá, a Uruçu e muitas, muitas outras, ainda viviam em outras regiões preservadas por essas pessoas que, assim como ela e seu Nemésio, enxergavam sua importância. Eram locais isolados que acabaram se tornando recantos de esperança para a humanidade. Esse foi o período mais feliz da vida de Susan, com suas plantas, abelhas e outras centenas de pessoas que ensinou como a vida fica mais fácil, leve e bonita quanto mais nos aproximamos da natureza. E sempre que lhe perguntavam como tudo começou, ela dizia que foi quando viu uma abelha diferente de todas as outras zanzando pela cidade. A Jataí? Perguntavam. O que ela respondia: O homem que cuidava delas.

Um conto de Edson Carvalho.

Edson Carvalho

Edson Carvalho é músico, poeta, ator e contista com inspiração nas belezas da natureza, nos exemplos de simplicidade, alegria e gratidão amplamente encontrados em nosso povo, mas que passam, muitas vezes, sutis, discretos e despercebidos aos nossos ocupados olhos.

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