Creditos: Cristiano Menezes - EMBRAPA

Abelhas parasitas forçam surgimento de subcasta de abelhas soldados

As abelhas Lestrimelitta representam uma ameaça para muitas abelhas Neotropicais (Grüter et. al 2016), e são temidas pelos meliponicultores, porem elas podem ser a força motriz da evolução das abelhas sem ferrão. Para estudar sobre isto grandes pesquisadores da área se uniram.

Os autores estudaram 28 espécies de abelhas sem ferrão de diferentes áreas do Brasil, buscando diferenças morfológicas (físicas) entre guardas (abelhas que ficam  na entrada do ninho) e forrageiras (abelhas que buscam alimento). Dentro dessas 28 espécies eles incluíram uma grande diversidade, com ninhos, alimentação e tamanho da colônia diferente entre as espécies.

Eles encontraram que em 10 das 28 espécies testadas, possuindo guardas de entrada, as guardas são significativamente maiores do que as forrageiras. Para chegar a essa conclusão eles mediram e compararam o tamanho das cabeças de cada grupo.

As três espécies com a diferenciação no tamanho mais evidente foram: T. angustula (JATAI), T. fiebrigi (JATAI), e Frieseomelitta longipes (MARMELADA) assim podemos considerar que estas espécies têm duas “subcastas” dentro da casta de operarias, separando as guardas e as forrageiras.

Além da diferença no tamanho das guardas, em varias espécies de Frieseomelitta descobriram que as guardas têm uma coloração diferente das forrageiras (d, f). As guardas são mais escuras que as forrageiras, isto pode significar que elas são mais resistentes, porem isto não foi encontrado. É possível que a camuflagem explique essa diferença de cor, tornando os guardas menos visíveis enquanto defendem a entrada do ninho.

O trabalho ainda mostra que toda essa diferenciação das operarias surgiu evolutivamente nos últimos 25 milhões de anos. E adivinha quando as abelhas parasitas (LIMAO) “surgiram”? A 25 milhões de anos.

Na imagem abaixo (a) é representado o grau de parentesco entre as espécies estudadas e o ancestral comum (que teria guardas e forrageiras de mesmo tamanho), onde o surgimento da diferenciação da casta surgiu 5 vezes independentemente, sendo mais evidente nas espécies mais derivadas (que surgiram mais recentemente na historia evolutiva).

Comparação entre guardas e forrageiras das 28 espécies de abelhas sem ferrão.

Comparação entre guardas e forrageiras das 28 espécies de abelhas sem ferrão (Grüter et. al 2017). Disponível em http://www.nature.com/articles/s41467-016-0012-y/figures/1

10 das 28 espécies estudadas são alvos da Lestrimelitta, destas 10 espécies 7 tem os guardas maiores que as forrageiras e apenas 3 das 18 espécies não alvo tem esta característica. Portanto, as espécies que são atacadas por esta abelha parasita tem uma probabilidade 4 vezes maior de ter o ninho protegido por guardas especializadas e maiores.

A abelha Tetragonisca angustula, já conhecida por ter guardas especializados, tem uma característica interessante, elas se tornam agressivas a objetos que tenham o cheiro ou a aparência semelhantes às abelhas cleptoparasitas Lestrimelitta limao (van Zweden et. al 2011), além disso, áreas onde o ataque é mais comum as colônias têm mais guardas (Segers et. al 2016)

Podemos concluir então que as abelhas cleptoparasitas são a força de seleção (a correnteza que gira a roda d’agua) por traz da evolução da complexidade organizacional e social de muitas abelhas sem ferrão.

 

O artigo na integra é aberto ao publico e pode ser baixado livremente.
Link Indireto: (tem que clicar em “full text link” a direita da pagina, depois clicar em pdf)
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28232746

Link direto: (só clicar em pdf para baixar)   http://www.nature.com/articles/s41467-016-0012-y

Link para imagens:  http://www.nature.com/articles/s41467-016-0012-y/figures/1

 A foto de capa comparando as operárias comuns e as soldados é de Cristiano Menezes, pesquisador da EMBRAPA.

Referências

Grüter, C, Segers, F. H. I. D,  Menezes, C., Vollet-Neto, A., Falcón, T., von Zuben, L., Bitondi, M. M. G., Nascimento, F. S. &  Almeida, E. A. B. Repeated evolution of soldier sub-castes suggests parasitism drives social complexity in stingless bees. Nature Communications, Article number: 4 (2017)

Grüter, C., von Zuben, L., Segers, F. & Cunningham, J. Warfare in Stingless bees. Insectes Soc. 63, 223–236 (2016).

Segers, F. H. I. D., Von Zuben, L. G. &Grüter, C. Local differences in parasitismo and competition shape defensive investment in a polymorphic eusocial bee. Ecology. 97, 417–426 (2016).

van Zweden, J. S., Grüter, C., Jones, S. M. &Ratnieks, F. L.W. Hovering guards of the stingless bee Tetragonisca angustula increase colony defensive perimeter as shown by intra- and inter-specific comparisons. Behav. Ecol. Sociobiol. 65, 1277–1282 (2011).

Luana Guimarães Santos

Mestranda na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP no Programa de Pós Graduação em Entomologia. Possui graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro (2014). Colaboradora da Associação de Preservação e Pesquisa Ambiental Vale Encantado, em atividades de Pesquisa e Educação Ambiental. Tem experiência na área de Entomologia, com ênfase nos seguintes temas: comportamento, biologia e ecologia de insetos. Atualmente trabalha com Abelhas sem ferrão realizando o Projeto: Mecanismos de defesa e identidade química cuticular da abelha sem-ferrão, Jataí, Tetragonisca angustula (Hymenoptera, Apidae, Meliponini). Se interessa por divugação científica e acredita que está é a forma mais rapida de melhorar o mundo.