Pugnax

Mirim Guerreira, a desconhecida Plebeia pugnax

Um assunto recorrente ao falarmos das abelhas sem ferrão é o desconhecimento. Desconhecimento sobre a importância das abelhas, desconhecimento sobre a existência das abelhas sem ferrão e o desconhecimento sobre suas características e comportamento mesmo quando se trata de pessoas que convivem com essas pequenas polinizadoras e esse é o caso da Mirim Guerreira, a desconhecida Plebeia pugnax.

Hoje conhecemos muitas espécies de abelhas sem ferrão, mas temos consciência de que várias outras ainda estão para serem descobertas e outras tantas provavelmente já foram extintas antes de conhecermos, devido a perda de habitat e outras atividades humanas impactantes. Não vou entrar no mérito das extinções naturais.

Um fator muito relevante para o desconhecimento de muitas espécies de seres vivos, e não só de abelhas, é a ausência de um número de profissionais que façam a descrição e classificação dessas espécies, os taxonomistas ou sistematas.

 

Uma dessas espécies que são muito pouco conhecidas é a Mirim Guerreira, a Plebeia pugnax.

Em uma primeira olhada, a Mirim Guerreira lembra um pouco a Mirim Droryana (Plebeia droryana) que possui a ornamentação de sua entrada de ninho lembrando um lábio construída com resinas, porém é bem mais populosa, como uma Mirim Saqui (Plebeia saiqui).

Ninho de Plebeia pugnax, foto de Gerson Pinheiro

Isso tudo a primeira vista, é claro, pois o comportamento da Mirim Guerreira é completamente diferente. Ao contrário de suas parentes próximas, essa espécie é bastante defensiva, mesmo com o tamanho reduzido. Não é capaz de gerar qualquer dano aos seres humanos, mas quando incomodada por algum enxerido que queira abrir seu ninho ou que pareça um predador em potencial ela enrola-se nos cabelos, procura ouvidos, narinas e faz tudo para incomodar e afastar seu agressor. 

Mas além disso, o que sabemos sobre a Mirim Guerreira?

Quase nada.

Quem começou a estudar essa espécie, foi o já falecido sistemata Padre Jesus Moure, um dos maiores especialistas em taxonomia de abelhas do mundo, e precursor do assunto no Brasil.

Padre Moure na em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná na década de 1960.

O seu epíteto específico “pugnax” vem do grego, onde quer dizer “agressivo”, a palavra tem a mesma raiz de “pugilismo” ou “pugilato”, e o termo tem de fato muito a ver com o comportamento dessas pequenas abelhas, embora seja mais apropriado se falar em “defensividade”do que de “agressividade” ao tratar de abelhas sem ferrão.

Existem alguns relatos de que meliponicultores as criem em Paraitinga, Bananal, e Angra dos Reis. E além disso algumas colônias foram levadas de Cunha para o Laboratório de Abelhas da USP de São Paulo no começo da década de 1990. Não sabemos sua ocorrência natural ao certo, mas nessa região entre o nordeste de São Paulo e o Sudeste do Rio de Janeiro os relatos são relativamente frequentes. O que indica que o Parque Nacional da Serra da Bocaina e o Parque Nacional do Itatiaia sejam bons lugares para tentar se estudar essas espécies em condições mais próximas do natural.

Como podem ver, são inúmeros os assuntos que podem ser estudados sobre essa espécie, e sobre tantas outras! Sobre a Mirim Guerreira, tudo o que temos é o nome científico e um estudo (muito bom)  sobre comportamento de voo de acordo com condições climáticas em que ela foi usada como modelo. Nem catalogada ela é! Após o falecimento do Padre Moure, a descrição dessa espécie ficou pendente até hoje.

Essas colônias que foram levadas de Cunha para o Instituto de Biociências da USP, foram enxameando por todo o campus ao longo dos anos, e hoje já é possível encontrar alguns ninhos pelo bairro do Butantã, onde fica a USP.

Laboratório de Abelhas da USP de São Paulo

Há algum tempo, a SOS Abelhas sem Ferrão foi chamada para resgatar dois enxames de Plebeia, em uma demolição, uma delas era uma Plebeia droryana e a outra uma Mirim Guerreira, a desconhecida Plebeia pugnax.

Aqui você pode conferir o trabalho no vídeo:

Uma das melhores formas de conservar as abelhas sem ferrão, é fazendo as pessoas as conhecerem, e para isso nós também precisamos saber mais sobre elas, por isso é determinante a formação de novos cientistas que nos ajudem a aprender mais sobre elas, então se você tem interesse em nossas pequenas abelhas indígenas, vá em frente!

  • ROGÉRIO CALDEIRA

    Boa noite, a muito tempo tento uma colméia que possuo, finalmente a minha é exatamente assim, muitos disseram que era plebéia Droryana, mas as características como defensivas e população não batia…muito menos a entrada. Agora sim, conferem todas informações.