Imagem1

Ingestão de inseticidas muda comportamento de abelhas sem ferrão

Inseticidas podem interferir na comunicação entre as operárias de abelhas sem ferrão, o que pode ser desastroso para a colônia. É isso que aponta uma pesquisa feita por pesquisadores da Universidade Federal de Grande Dourados, no MS, em parceria com pesquisadores da Itália e da Alemanha.

A vida numa colônia de abelhas sem ferrão é bastante complexa, e essa complexidade se deve, em grande medida, à capacidade de comunicação entre elas. Seja para reconhecer uma irmã, defender o ninho ou comunicar uma boa fonte de alimento, as abelhas se comunicam o tempo todo. Até para avisar a rainha que uma célula de cria está pronta para receber um ovo.

As abelhas sem ferrão usam duas linguagens principais para fazer essa comunicação: o toque de antenas e a trofolaxia, que é a troca de alimento boca a boca. Pelo toque das antenas, elas percebem o cheiro do ninho, das suas irmãs, da rainha, se há perigo, onde está o mel e muito mais. E, pela trofolaxia, elas reforçam sua imunidade, trocam bacterias benéficas e alimento e reforçam os laços fraternos. Alterações nesse sistema de comunicação podem afetar toda a colônia.

Os pesquisadores testaram o efeito do pesticida Fastac Duo, utilizado para controlar percevejos e mosca-branca em culturas de soja, sobre operárias de mandaçaia (Melipona quadrifasciata). Para isso, deram xarope de água com açúcar misturado com diferentes doses do pesticida, até estabelecerem uma dosagem baixa o suficiente para não matar as operárias: 300 nanogramas por abelha. Equivale a pegar um grama do veneno, dividir por um bilhão e pegar 300 pedacinhos.

Operária de Mandaçaia, foto de André Matos

Eles então fizeram experimentos colocando uma operária que recebera o veneno em uma placa com  duas operárias que ficaram uma hora sem receber alimento e observaram o comportamento de toque de antenas e de trofolaxia. Também fizeram o mesmo colocando uma operária que recebera xarope sem veneno com duas operárias com fome, para  comparar o resultado. Os experimentos foram repetidos 17 vezes com diferentes abelhas.

O que eles observaram é que as abelhas que receberam o pesticida diminuiram drasticamente sua interação social com suas irmãs, deixando de fazer trofolaxia e toque de antenas por pelo menos duas horas. Como apontam os pesquisadores, a falta de comunicação afeta a memória olfatória das abelhas forrageiras e prejudicam a detecção de intrusos, colocando toda a colônia em risco. Depois de duas horas sem contato com o veneno, o comportamento de trofolaxia parecia voltar ao normal, mas o toque de antenas, não. Mas, como frisaram os pesquisadores, em condiçoes naturais as abelhas visitam as flores muitas vezes, e podem se recontaminar continuamente, afetando severamente as colônias.

Portanto, quando disserem que inseticida só é prejudicial às abelhas se mal aplicado, que é inofensivo se bem utilizado, desconfie. Mesmo doses pequenas, não sufucientes para matar diretamente as operárias afetadas, podem fazer um grande estrago às nossas abelhinhas.