Capa Guia De Campo

Cerrado Infinito: expedições, projeto artístico e guia de campo.

Recentemente conheci um projeto chamado “Cerrado Infinito“, a princípio achei que se tratava de um projeto de recuperação do bioma do Cerrado, que está gravemente ameaçado, senão extinto. Descobri que o projeto na verdade se trata sim de um projeto de recuperação do Cerrado, mas ao mesmo tempo não.

A rocha

O Cerrado Infinito se trata de uma representação artística do que um dia foi o Cerrado Paulistano, denominado pelos colonizadores jesuítas como “Campos de Piratininga”. Esse projeto idealizado pelo artista Daniel Caballero visa gerar uma reflexão através da materialização do que sobrou das plantas que compunham a paisagem da cidade de São Paulo antes da chegada dos portugueses.

Nessa jornada de tornar material o fantasma dos Campos de Piratininga, Caballero conheceu diversas plantas do Cerrado, algumas tidas como vulgares ou pragas e outras já ameaçadas de extinção no estado de São Paulo, e nesse processo o artista produziu diversas gravuras das paisagens e dos cenários que visitou, indo desde beiras de estrada e terrenos baldios até fragmentos bem preservados do cerrado paulista.
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A arte

A proposta artística de Daniel Caballero pode parecer bastante estranha a princípio, mas na verdade é bastante interessante pelas reflexões que produz em um processo de reintrodução de espécies de Cerrado nativas da cidade e que hoje são desconhecidas pela maior parte da população, dessa forma penso que a arte de Caballero não está presente só na trilha que montou na “Praça das Nascentes” simulando os não explorados Campos de Piratininga, nem nas belíssimas ilustrações que produz das plantas do Cerrado, mas também nas Infinitas Possibilidades que podem surgir de uma simples praça recolonizada com plantas que um dia ali viviam e foram sendo substituídas por espécies exóticas. Está no que a mente de cada pessoa o que se  pode fazer com isso.
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O livro

Das expedições botânico-artísticas feitas por Daniel Caballero, surgiu um livro chamado de “Guia de campo dos Campos de Piratininga ou O que sobrou do cerrado paulistano ou Como fazer seu próprio Cerrado Infinito“. O nome é grande e pode te assustar e causar estranhamento, mas pode manter a tranquilidade que o livro em si pode te assustar muito mais e te gerar ainda mais estranhamento. E é isso (entre outras coisas) que faz a sua leitura tão boa.

Ao mesmo tempo o livro te demonstra como a cidade de São Paulo (ao contrário do que se pensa) não nasceu na mata atlântica, e sim cerrado. No livro são citadas várias evidências, desde nomes de ruas e bairros, dicas na topografia e até trechos de documentos históricos. São Paulo é um grande mosaico de diversos biomas.

A questão da supressão e desconhecimento acerca do bioma do Cerrado é tratada de forma bem séria e fundamentada, ao mesmo tempo em que Caballero retoma lembranças de sua infância e percepções anteriores ao projeto de forma bem simples e descontraída, o que pelo menos no meu caso gerou uma identificação quase imediata.
Mas como disse, entre outras coisas, o livro também é um Guia de Campo, e nesse guia de campo temos além da narrativa da aventura naturalista do autor, 50 fichas de plantas do Cerrado, que compunham a paisagem dos Campos de Piratininga representadas em lindas iluminuras do artista, além é claro de descrições das plantas em uma linguagem acessível, breves relatos sobre o contato com as plantas e de instruções de como planta-las e reproduzi-las, afinal o livro também serve como manual de “Como fazer o seu próprio Cerrado Infinito”
As fichas tem a particularidade de possuírem cada uma um “QR Code” que leva para o site do projeto, onde existem as fichas expandidas das plantas, constantemente atualizadas. As fichas foram feitas por Daniel Caballero e Gui Ranieri.
Fichas

A experiência

Embora o livro seja relativamente curto e eu tenha levado um tempo maior que o esperado para concluir sua leitura (devido a diversos afazeres) sua leitura é muito fluída e rápida, ao mesmo tempo que possui uma enorme densidade de informações e reflexões. Escrevo esse texto poucos dias após uma viagem pelos interiores de São Paulo e Minas Gerais, eixo em que cresci, mas agora tenho uma visão completamente nova, um tanto despertada, um tanto surpresa e outro tanto apavorada quanto a essa paisagem que pra mim sempre foi tão natural e que agora vejo mais nitidamente, tanto em detalhes quanto na escala mais macro. Desde os mais simples capins de Cerrado que brotam de fendas no asfalto até a questão da Descolonização das plantas e outras várias coisas introduzidas e impostas a nós pelos povos que colonizaram e saquearam o Brasil.

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Tenho até um causo aqui que vale ser mencionado, o de minha companheira e das pixiricas. Ela que gosta muito de frutinhas tipo “berry” ficou pasma, impressionada e um tanto revoltada ao saber da existência de uma planta nativa do Cerrado paulistano chamada Pixirica e que tem sabor e consistência semelhantes ao do exótico mirtilo ou “blueberry”. E não há para nós, qualquer argumento lógico para entender o motivo que leva a essa e outras várias plantas muito saborosas nativas do Brasil não serem cultivadas e comercializadas em um país que exporta frutas, e por algum motivo bizarro essas frutas são quase todas exóticas.

A conclusão

Sem dúvidas eu recomendo a leitura do Guia de Campo e se possível que conheçam o “Cerrado Infinito”.
Nesse momento eu vou ser bem chato e exibir a honra que tenho de ter um exemplar do livro autografado pelo Daniel Caballero. E além de tudo a encadernação usa uma técnica manual chamada de “Copta” que permite você abrir o livro em 180° sem aquele medo de estragar o livro.
Autografada

Fica aqui meu desejo de que o Cerrado Infinito continue a ser infinito em sua infinidade de sentidos, e que desses sentidos surja um novo, que o Cerrado Infinito, infinito em si também abrigue muitas abelhas nativas, entre elas as sem ferrão. Que o Cerrado Infinito seja infinito na prática e na imaginação de todos e que abrigue também um “meliponário infinito” onde as experiências em que as abelhas zumbindo feito motos sejam cada vez mais corriqueiras.

Parabenizo Caballero e todos os envolvidos na produção desse riquíssimo material.

Texto de Celso Barbiéri Jr.

Celso Barbiéri

Mestrando em Sustentabilidade e Bacharel em Gestão Ambiental pela USP. Diretor técnico-científico da SOS Abelhas sem Ferrão. Atualmente pesquisando abelhas sem ferrão, meliponicultura e ecologia urbana. Interessado em divulgação científica e em mostrar para as pessoas que aprender pode ser divertido. Praticante de Karatê, entusiasta de literatura fantástica e ficção científica. Jogador competitivo de Pokémon e fã de animes e mangás nas horas vagas.