Centris Analis

Centris as abelhas coletoras de óleos

O nome Centris significa “espinha”, embora esta denominação dada por Fabricius (cientista que há 200 anos identificou pela primeira vez essa abelha) nunca foi clara, e não nos deixou mais detalhes sobre sua descrição.

    Centris juntamente de Epicharis, são abelhas solitárias pertencente à tribo Centridini, que compreendem 21 gêneros e aproximadamente 250 espécies. Dependendo do gênero, o tamanho das abelhas dessa tribo pode variar de 9 a  32 milimetros. São também conhecidas como abelhas coletoras de óleo. Há cerca de 2000 plantas no mundo que produzem óleos em suas flores e 450 espécies de abelhas que são especializadas na coleta desse óleo, dependem desse recurso para nidificar e alimentar suas larvas.

Centris (Trachina) fuscata [Foto de Julio Pupim]

     A tribo Centridini ocorre na região Neotropical e parte da Neártica; encontrada desde a Argentina até o sul dos Estados Unidos, em tipos vegetacionais diversos como desertos, caatinga, savanas e florestas tropicais.

    Essas abelhas possuem adaptação especial nas pernas anteriores e médias para a coleta do óleo, que consiste em um conjunto de pelos modificados e um pente de cerdas rígidas primário e secundário nas quatro pernas. Este padrão é encontrado em todas Epicharis. Em algumas espécies de Centris, este aparato foi perdido, provavelmente pela ausência de vegetação com óleo a ser oferecido.

Fêmea de Centris analis [Foto de Julio Pupim]

    Fêmeas da tribo Centridini, podem ser observadas em ocos de bambus, cavidades em galhos e pedaços de madeira, em gêneros de maior tamanho o solo é o substrato mais procurado, assim, é necessário oferecer, substratos vegetais como madeiras furadas e também áreas livres de manejo intensivo com arados agrícolas, para que as populações não sejam afetadas.

Uma vez escolhido o local, ela inicia a construção de células de crias, utilizando o óleo para impermeabilizar as paredes e também para alimento larval, juntamente com o pólen. O alimento consiste em uma mistura de néctar e pólen, e em algumas espécies o óleo também é acrescentado. Em cada célula, providencia a alimentação e deposita um ovo. Ao final, sela a entrada com um pouco de areia ou serragem misturado ao óleo.

Abrigo de aglomerado de bambu com furos de 10mm e pedaço de madeira 

Algumas espécies de Centris têm machos extremamente territorialistas, estes indivíduos liberam feromônios no local escolhido para o acasalamento. Defendem cada centímetro quadrado de uma folha, atacando tudo e qualquer inimigo ou concorrente que ouse cruzar o seu espaço.

    Abelhas adultas dessa tribo se alimentam de néctar, e procuram essa fonte de alimento em plantas das famílias Bignoniaceae, Caesalpiniaceae, Passifloraceae, Fabaceae e Sterculiaceae. Para encontrar pólen, visitam Solanaceae, Caesalpinaceae, Malpighiaceae e Plantaginaceae.

Machos e fêmeas da espécie Epicharis flava, são  conhecidos como polinizadores do maracujá doce (Passiflora alata). Ambos buscam néctar nas flores e tocam as anteras com o tórax dorsalmente, e assim realizam o transporte do pólen na polinização cruzada até o estigma da próxima planta e flor visitada.

macho de Epicharis flava

    A importância dessas abelhas na fauna se dá pela sua grande diversidade de espécies, pela variação de tamanho entre os gêneros, pela ampla distribuição e interação com muitas espécies de plantas. No Brasil , temos Centris como importante polinizadora da acerola, do maracujá e da castanha do Pará.

Introduzida no Brasil nas décadas de 70 e 80, hoje a aceroleira é cultivada em todo o país, por ser bem adaptada às condições locais, seu cultivo é indicado para pomares caseiros, necessita de polinização cruzada, sua flor é fonte de óleo, que é utilizado por estes polinizadores e assim proporcionando a nós, oferta de frutos que podem, ser produzidos de forma orgânica.

    Vale ressaltar a importância de conhecer as abelhas nativas, e como algumas relações são específicas e exclusivas. Fauna e flora brasileira contêm uma riqueza inestimável e fazemos parte de uma cadeia de preservação, adaptação  e perpetuação destas espécies.

   Plantas que polinizam e indicadas para pomares caseiros :

 

acerola – Malpighia emarginata

cajú – Anacardium occidentale

castanha do pará – Bertholletia excelsa

goiaba – Psidium guajava

urucum – Bixa orellana

tamarindo – Tamarindus indica

maracujá doce – Passiflora alata

 

Plantas atrativas:

feijão guandú – Cajanus cajan

picão amarelo – Bidens rubifolia

murici – Banisteriopsis stellaris

margaridão mexicano – Tithonia diversifolia

lobeira – Solanum lycocarpum

ipê amarelo – Handroanthus ochraceus

 

Se você se interessou por abelhas solitárias, confira essa matéria sobre as Euglossini, as abelhas das orquídeas.

Esse material é uma colaboração de Adriana Tiba (texto)  e Julio Pupim (fotos) que gentilmente disponibilizaram esse material para publicação em nosso site.

Adriana Tiba é ceramista e criadora livre de abelhas. Confira sua página no facebok

Julio Pupim é agricultor e Conselheiro da SOS Abelhas sem Ferrão. Confira seu álbum de fotos de abelhas no Flickr.

REFERÊNCIAS:

SAZAN,M.S. 2014 Manejo dos polinizadores da acerola. Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo

GAGLIANONE,M.C., AGUIAR, A.J.C., VIVALLO, F.& ALVES-DOS-SANTOS,I. 2011 Checklist das abelhas coletoras de óleos do Estado de São Paulo, Brasil. Biota Neotrop.

GAGLIANONE,M.C., ROCHA,H.H.S., BENEVIDES,C.R,JUNQUEIRA,C.N. & AUGUSTO,S.C. 2010 Importância de Centridini (Apidae) na polinização de plantas de interesse agrícola: o maracujá-doce ( Passiflora alata ) como  estudo de caso na região Sudeste do Brasil . funbio.org.br

MARTINS,A.C. 2014 Evolução das abelhas coletoras de óleos florais Centris e Epicharis: inferências a partir da filogenia molecular datada da subfamília Apinae e das plantas produtoras de óleo floral na Região Neotropical. Universidade Federal do Paraná

OLIVEIRA,R., MARTINS, C.F., ZANELLA, F.& SCHLINDWEIN, C. 2014 Abelhas solitárias produzem acerolas – FUNBIO, Rio de Janeiro