ARTIGO CAIXA DIDATICA CAPA

Caixa didática SOS Abelhas Sem Ferrão.

Publicação do Artigo cientifico na Sociobiology – An international journal on social insects.

Gostaríamos de destacar nossos profundos agradecimentos a voluntária Giovanna Lins pela tradução do artigo para o Português.

Uma nota científica sobre um modelo de colmeia de Abelhas Sem Ferrão para estudos ecológicos e comportamentais e para a educação ambiental
C Barbieri1,2, GL Pinheiro2, PM Drago1, TM Francoy1
1 – Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, SP, Brasil
2 – SOS Abelhas sem Ferrão, São Paulo-SP, Brasil

Editado por
Kleber Del-Claro, UFU, Brasil
Recebido em 01 maio 2018
Aceitação inicial 28 de junho de 2018
Aceitação final 24 de julho de 2018
Data de publicação 25 de abril de 2019
Palavras-chave
Meliponini, Biologia de Nidificação, Entomologia, Apicultura, Apidae, Meliponicultura.
Autor correspondente
Tiago Mauricio Francoy
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Universidade de São Paulo – USP
Rua Arlindo Béttio, 1000, Bloco A1, sala T10L
CEP 03828-000, São Paulo-SP, Brasil.
E-mail: tfrancoy@usp.br

Resumo
As abelhas sem ferrão (Apidae, Meliponini) ocupam uma ampla gama de habitats nas regiões tropicais e subtropicais do mundo. Eles são eusociais e vivem em colônias sésseis. A maioria das espécies de meliponini constroem seus ninhos em cavidades pré-existentes, como as cavidades das árvores. Os atuais modelos de colmeias de abelhas sem ferrão imitam as condições dos ninhos naturais. No entanto, eles não são convenientes para estudos científicos, especialmente aqueles com foco em características ecológicas e comportamentais. Desenvolvemos e testamos um modelo de colmeia que garante visibilidade clara do interior da colmeia, facilitando estudos ecológicos e comportamentais e educação ambiental. Nosso novo modelo foi usado com sucesso para abrigar e manter dez espécies de abelhas sem ferrão e uma espécie de abelha de orquídea de comportamento semi-social.

Introdução
As abelhas sem ferrão estão entre as polinizadoras mais importantes dos trópicos sul-americanos (Duarte et al., 2016). Elas ocupam uma grande variedade de habitats e são notavelmente diversificados em regiões tropicais e subtropicais quentes. Todas as espécies de abelhas meliponini conhecidas são eusociais e vivem em colônias sésseis. A maioria das espécies constrói seus ninhos em cavidades de árvores, embora algumas construam ninhos expostos ou ocupem cavidades no solo ou mesmo dentro de ninhos abandonados de cupins ou formigas (Nogueira-Neto, 1997; Camargo, 2007). Locais de nidificação adequados e recursos de construção são fatores cruciais e limitantes para a ocorrência de abelhas sem ferrão, especialmente em habitats que foram alterados pelo homem (Sakagami, 1982; Roubik, 1989).
Os modelos de colmeias mais utilizados no Brasil e na Mesoamérica podem ser categorizados em modelos horizontais e verticais (Leão et al., 2016). O modelo horizontal, que é o mais tradicional, é geralmente não modular, sem quaisquer divisões internas, apesar de opções mais elaboradas que possuem estágio interno divisões para separar os potes de armazenamento de alimentos da ninhada (Nogueira-Neto, 1997; Sommeijer, 1999). Este tipo de modelo permite visualizar a parte interna da colmeia. Os modelos verticais seguem a organização natural do ninho da maioria das espécies meliponini. Sua popularidade está crescendo entre os apicultores de abelha sem ferrão (Venturieri, 2008). Eles costumam ter módulos destacáveis, como o modelo de Fernando Oliveira (Oliveira & Kerr, 2000). Este tipo de modelo tem muitas derivações criadas de acordo com as preferências pessoais; Ele é organizado para separar a câmara base, que contém as células de cria, dos módulos de gerenciamento acima do ninho, onde os potes de armazenamento de alimentos geralmente são colocados. Os meliponistas mais experientes constroem e testam vários modelos de colmeia e adaptam suas práticas de manejo de acordo com suas observações (Jaffé et al., 2015).
Infelizmente, os modelos de colmeia mais difundidos não são convenientes para estudos científicos. Aqui, apresentamos um modelo de colmeia que permite estudos comportamentais e ecológicos, desenvolvido por Gerson Luiz Pinheiro, co-autor deste artigo e membro da ONG SOS Abelhas sem Ferrão.
Este modelo de colmeia foi desenvolvido em 2014 para fins de educação ambiental. O aspecto mais relevante deste modelo é o seu conceito; as dimensões variam, pois cada espécie precisa de diferentes tamanhos de cavidades (Tabela 1).

Tabela 1. Espécies de abelhas criadas no modelo de colmeia de abelhas sem ferrão SOS.

Materiais e métodos
Os materiais usados para construir este modelo de colmeia são:
1- Tábuas de madeira, com pelo menos 1 cm de espessura;
2- Painéis de acrílico transparente ou policarbonato, com 3 mm de espessura; 3- EVA (Acetato de Etil Vinil), camada de 3mm de espessura;
4-Parafusos;
5-Fecho de pressão;
6-Puxador de madeira;
7-Dobradiças;
8-Pequenas tiras de madeira
A estrutura básica do modelo de colmeia é feita com as tábuas de madeira e depois aparafusada. Fechaduras de pressão, dobradiças, pés e botão também são aparafusados. A camada de proteção de EVA é fixada à parede móvel e à cobertura do telhado usando cola PVA (acetato de polivinila) devido às suas propriedades de vulcanização. A janela de observação é anexada à colmeia, incorporando-a em um recorte de baixo relevo e mantendo a colmeia fechada por alguns dias. As abelhas selarão a janela de observação na própria colmeia, usando própolis.
O modelo de colmeia é composto por 11 partes principais: A) Paredes; B) Pés; C) Entrada da colmeia; D) Fecho de pressão; E) Parede móvel; F) Camada de proteção; G) Cobertura do telhado; H) Botão; I) Janela de observação; J) Suporte do alimentador; K) Dobradiças; (Figura 1).

Figura 1. Modelo de Colmeia SOS Abelhas sem Ferrão (Ilustrações de Paula Drago)

A escolha dos materiais foi baseada em várias tentativas e observações práticas. Explicações sobre o uso de materiais e as funções das partes:
A) Paredes (e estrutura básica): utilizamos madeira de pinus. No entanto, outros tipos de madeira não tratados podem ser usados.
B) Pés: usamos duas tiras de madeira idênticas abaixo da colmeia para reduzir o contato entre a colmeia e a superfície onde ela está instalada.
C) Entrada da colmeia: o buraco central permite que as abelhas entrem e saiam da colmeia. O tamanho da entrada pode ser alterado para acomodar espécies de vários tamanhos. O circulo de baixo-relevo é para anexar proteção contra formigas e lagartos, ou um túnel de saída feito com um tubo de plástico. O túnel de saída permite que as abelhas deixem a colmeia para fora, mesmo quando a colmeia é mantida dentro de casa. Para transportar as colônias de um lugar para outro, a entrada deve ser selada na noite anterior.
D) Fecho de pressão: o fecho de pressão veda eficazmente a colmeia contra a luz, pressionando a parede móvel contra a janela de observação. Não recomendamos outros tipos de fechamento, pois eles não podem bloquear totalmente a luz externa, mesmo com a camada de proteção. O fechamento de pressão impede que a luz entre na colmeia. Consequentemente, as abelhas não propiciam a janela de observação, permitindo uma visibilidade clara da colmeia, quando a parede móvel é articulada aberta.
E) Parede móvel: uma parede articulada da colmeia conectada com dobradiças e um fechamento de pressão. Uma camada de proteção é anexada ao lado interno da parede móvel.
F) Camada de proteção: o material recomendado é o EVA, pois protege as janelas de observação de choques mecânicos; sua opacidade e flexibilidade bloqueiam a luz quando a parede móvel é adequadamente fechada.
G) Cobertura do telhado: protege a colmeia contra condições climáticas, como chuva, granizo e luz solar. As camadas de proteção da cobertura também reduzem os choques mecânicos contra a janela de observação superior. Como a cobertura do telhado não está em contato com as abelhas, ela não é revestida com própolis e, portanto, não é colada ao resto da colmeia.
H) Botão: facilita a remoção da cobertura do telhado.
I) Janela de observação: os melhores materiais são acrílico transparente ou policarbonato; eles são mais finos e mais resistentes que o vidro e mais fáceis de limpar. Quando a janela de observação está excessivamente coberta com própolis, ela pode ser substituída e a janela “suja” pode ser limpa com um prolongado banho de água ou álcool. As abelhas fixam a janela de observação à estrutura da colmeia, selando as laterais com própolis.
J) Suporte do alimentador de colmeia: feito com tiras de madeira.
K) Dobradiças: permite que a parede móvel abra e feche quando necessário.

Medidas:
adotamos várias medidas para o modelo de colmeia, de acordo com as particularidades das espécies de abelhas (Tabela 1).
As medições mais relevantes são o tamanho interno e a espessura da madeira. O tamanho interno muda de acordo com a exigência de cada espécie, como o volume da câmara de criação, o volume de alimento armazenado, etc. A espessura da madeira varia de acordo com as necessidades de termorregulação e umidade das espécies. Recomendamos madeira mais espessa em regiões com maior variação de temperatura ou menor temperatura média.
Transferimos todas as colônias de meliponíneos de ninhos-armadilha ou outros modelos de colmeia. O único que foi espontaneamente colonizado foi a colmeia com Euglossa sp.

Figura 2: Colmeia fechada (foto por André Matos)

Resultados
Utilizamos com sucesso este modelo de colmeia para dez espécies de meliponini e uma espécie de euglossini (Tabela 1). Todas as colônias desenvolveram-se bem e ocuparam com êxito as colmeias sem problemas. Todas as colônias foram usadas em atividades de educação ambiental uma vez por semana, e nenhum dano à saúde da colônia foi notado. Este modelo de colmeia permite uma excelente visibilidade do interior da colmeia (Figuras 2 e 3).

Figura 3: Visão interna (foto por André Matos)
Figura 4: Versão com duas paredes móveis (foto por Celso Barbieri)

Este modelo de colmeia tem uma versão alternativa com duas paredes móveis e três janelas de observação. Essa variação permite outros ângulos de observação e uso de luz para fotografia e estudos (Figura 4). É uma boa opção para estudos entomológicos, comportamento apícola e pesquisa ecológica e educação ambiental.

Discussões
Nosso novo modelo de colmeia oferece uma boa visão do interior do ninho e não interfere no desenvolvimento natural das colônias. Modelos horizontais atuais permitem uma visualização clara do interior do ninho; no entanto, eles resultam na colocação de componentes não naturais de colônias para a maioria das espécies, o que pode afetar a biologia e o comportamento das colônias. Algumas espécies, como Melipona marginata e Melipona subnitida, desenvolvem-se bem nos modelos horizontais (Celso Barbieri & Gerson Luiz Pinheiro, observações pessoais), mas o conceito de nosso modelo pode ser facilmente adaptado para esses casos particulares. Além das vantagens para uso científico e educacional, nosso modelo facilita o gerenciamento de colônias, pois dá acesso à área interna do ninho de dois ou mais lados, o que não é possível com modelos tradicionais.

Agradecimentos
O Dr. David De Jong gentilmente nos ajudou a melhorar o inglês do nosso manuscrito. Agradecemos à ONG SOS Abelhas sem Ferrão (www.sosabelhassemferrao.com.br) pelo apoio nesse projeto.

Direitos de uso
A comercialização deste modelo de colmeia é reservada para a organização sem fins lucrativos SOS Abelhas sem Ferrão (SOS Stingless Bees). Pode ser produzido para uso privado, pesquisa e educação, exceto se envolver interesses de lucro.

Contribuição dos autores
Celso Barbieri Jr: Dados coletados, escreveu o jornal
Paula Marques Drago: Fez as ilustrações, escreveu o jornal
Gerson Luiz Pinheiro: Desenvolveu e construiu as colmeias
Tiago Mauricio Francoy: Ajudou a detalhar o conceito e escreveu o artigo


Referências
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Jaffé, R., Pope N., Carvalho A.T., Maia U.M., Blochtein B., Carvalho C.A.L., Carvalho-Zilze, G.A., Freitas, B.M., Menezes, C., Ribeiro, M.F., Venturieri, G.C. & Imperatriz Fonseca, V.L. (2015) Bees for development: Brazilian survey reveals how to optimize stingless beekeeping. PLOS ONE, 10: e0121157. doi: 10.1371/journal.pone.0121157
Leão, K.L., Queiroz, A.C.M., Contrera, F.A.L.,Veiga, J.C., Venturieri, G.C. (2016). “Colony Development and Management of the Stingless Bee Scaptotrigona Aff. postica (Apidae: Meliponini) Using Different Hive Models.” Sociobiology, 63: 1038-1045. doi: 10.13102/sociobiology.v63i4.1041.
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