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Botando ordem na casa, a divisão de tarefas nas abelhas sem ferrão.

Imagine uma casa onde moram mil pessoas, e estas fazem o que querem e quando querem, imagine a bagunça que não seria! A divisão de tarefas é essencial para o bom funcionamento e sobrevivência de qualquer casa, inclusive das colônias de abelhas.

Formiga-cortadeira ou saúva (Atta sexdens) • Foto Vanessa Gama / Musa

Em insetos sociais ocorrem dois tipos predominantes de divisão de trabalho: o polietismo morfológico e o polietismo etário (temporal). No primeiro caso, que ocorre em formigas e cupins, existem castas com diferentes formatos do corpo e elas são geralmente especializadas em executar diferentes funções. Indivíduos menores executam tarefas dentro da colônia enquanto que os maiores realizam funções extranidais (Wilson, 1971). Assim como você vê nas formigas cortadeiras (saúvas) que tem algumas menores que estão sempre carregando as folhas e algumas com cabeças imensas que tem muita força nas mandíbulas que são as soldadas (fig. 1). O mesmo pode ser visto em cupins.

Recentemente o primeiro caso de abelha sem ferrão com polietismo morfológico foi publicado sobre Tetragonisca angustula (Jataí), na qual a defesa da colônia é realizada por uma sub-casta especializada de soldados (Majors). Os soldados são ambos maiores e com formato corporal diferente das forrageiras (Minors) e representam 1% – 6% da população da colônia (Grüter et al. 2012; Segers et al. 2015). Esta especialização foi encontrada em outras abelhas sem ferrão como mostrado aqui.

Figura 2. Polietismo temporal em Tetragonisca angustula (Hammel, 2015; traduzido). O quadro mostra diariamente a proporção de guardas (cinza escuro) e operarias (cinza claro) realizando comportamentos específicos durante o período de vida.

O polietismo etário é bem estudado em abelhas, principalmente em Apis mellifera (Seeley & Kolmes, 1991) neste tipo de divisão de trabalho não existe diferença morfológica, e o tipo de tarefa realizada muda conforme a idade da abelha (fig. 2). Em abelhas sem ferrão o funcionamento é semelhante (Bassindale, 1955; Sakagami, 1982).

Basicamente a sequência da divisão de tarefas, após o nascimento da abelha, segue esta ordem: trabalhos com cerúmen, construção e aprovisionamento das células de cria, limpeza da colônia, recepção e desidratação do néctar, trabalhos com pólen, guarda e forrageio (Wille, 1983; Simões & Bego, 1991; Giannini, 1997).

 No quadro  (fig. 2) doze comportamentos são apresentados, mas existem mais alguns. Observe que há três repartições perceptíveis durante a vida de uma operaria. As funções que são realizadas no inicio da vida (até 7 dias) estão concentradas na área de cria, como o mastigamento de cera e construção das células de cria. Em torno de 10 dias as atividades passam a ser realizadas nas periferias do ninho, como a construção de potes e a manipulação de lixo. Ao se aproximar do fim da vida a abelha passa a realizar atividades no exterior do ninho, como forrageio e guarda.

Figura 3. Apenas as abelhas de idade avançada fazem as tarefas externas ao ninho. Autor : André Matos

É interessante notar que neste quadro (Fig. 2) é apresentada a diferença da divisão de tarefas de acordo com a idade de guardas e operarias. Este estudo foi feito apenas para T. angustula (Hammel, 2015 ). Mas é facilmente encontrada a divisão de tarefas de acordo com a idade entre as operarias para outras espécies.

Alguns estudiosos (Sakagami e Fukuda 1968) afirmam que esta repartição (entre executar as tarefas de dentro do ninho no inicio da vida e aquelas tarefas que a abelha precisa deixar a colônia no fim da vida) se deve pela periculosidade da tarefa (Fig. 3), adiando o trabalho mais perigoso para a idade mais avançada, sendo uma adaptação evolutiva.

 

Curiosidades: Há uma serie de modificações no corpo e fisiologia de cada abelha durante sua vida, essas mudanças ocorrem conforme a ordem etária das funções executadas e auxiliam nas tarefas realizadas, mas isso é assunto para um outro texto.

Referências:

Bassindale R (1955) The biology of the stingless bee Trigona (Hypotrigona) gribodoi Magretti. Proc Zool Soc Lond 125: 49-62.

Fukuda, H. & Sakagami, S.F. Res Popul Ecol (1968) 10: 31. doi:10.1007/BF02514731

Giannini K M (1997) Labor division in Melipona compressipes fasciculata Smith (Hymenoptera: Apidae: Meliponinae). An Soc Entomol Brasil 26: 153-162.

Grüter, C., Menezes, C., Imperatriz-Fonseca, V. L., And Ratnieks, F. L. W. (2012). A Morphologically Specialized Soldier Caste Improves Colony Defence In A Neotropical Eusocial Bee. Proceedings Of The National Academy Of Sciences Of The United States Of America 109, 1182-1186.

Hammel B, Vollet-Neto A, Menezes C, Nascimento FS, Engels W, Grüter C (2015) Soldiers in a stingless bee: work rate and task repertoire suggest they are an elite force. The American Naturalist 187(1): 120-129. http://dx.doi.org/10.1086/684192

SAKAGAMI, S. F. 1982. Stingless bees. In: HERMANN, R. H. ed. Social insects. New York, Academic Press. v.3, p.316-423.

Seeley TD, Kolmes SA. Age poleythism for hive duties in honey-bees—illusion or reality? Ethology. 1991;87(3–4):284–297.

Segers, F. H. I. D., C. Menezes, A. Vollet-Neto, D. Lambert, and C. Grüter. 2015. Soldier production in a stingless bee depends on rearing location and nurse behaviour. Behavioral Ecology and Sociobiology 69:613–623.

Simões, D. & L. R. Bego. 1991. Division of labor, average life span and life table in Nannotrigona (Scaptotrigona) postiça Latreille (Hymenoptera, Apidae, Meliponinae). Naturalia 16:81-97.

Wille, A. 1983. Biology of the stingless bees. Annual Review of Entomology 28: 41–64.

Wilson, E. O. 1971. The Insect Societies. Belknap Press of  Harvard Univ. Press. Cambridge, 548p.

Luana Guimarães Santos

Mestranda na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP no Programa de Pós Graduação em Entomologia. Possui graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal do Triângulo Mineiro (2014). Colaboradora da Associação de Preservação e Pesquisa Ambiental Vale Encantado, em atividades de Pesquisa e Educação Ambiental. Tem experiência na área de Entomologia, com ênfase nos seguintes temas: comportamento, biologia e ecologia de insetos. Atualmente trabalha com Abelhas sem ferrão realizando o Projeto: Mecanismos de defesa e identidade química cuticular da abelha sem-ferrão, Jataí, Tetragonisca angustula (Hymenoptera, Apidae, Meliponini). Se interessa por divugação científica e acredita que está é a forma mais rapida de melhorar o mundo.
  • Alexandre Viana da Silva

    Adorei o estudo, ótima narrativa com simplicidade e estudos técnicos! Estou querendo iniciar em minha residência uma comunidade de Jatai mas queria saber um pouco do comportamento dela e achei excelente esse estudo para me ajudar!

  • Gostei muito do que li aqui no seu site.Estou estudando o assunto,Mas quero agradecer por que seu texto foi muito valido. Obrigado 🙂