Tetragonula

Além da polinização: Melitocoria, a dispersão de sementes por abelhas sem ferrão

O papel das abelhas como polinizadoras de plantas cultivadas e nativas é bastante conhecido. Com esse serviço, transportam o pólen e garantem a formação de frutos. Porém, abelhas podem atuar também como importantes dispersoras de sementes. A dispersão de sementes é um passo fundamental da reprodução das plantas, em que as sementes são carregadas para locais distantes da planta-mãe, favoráveis para a germinação e desenvolvimento de uma nova planta. Esse processo pode ocorrer de vários modos, como por exemplo, pelo vento (chamada anemocoria – como as sementes aladas de ipê) ou por animais (zoocoria), que ingerem frutos (mamão, amora, entre muitos outros) ou os carregam sem perceber (carrapichos que grudam no pelo dos animais ou na nossa calça). O primeiro caso de dispersão de sementes realizado por abelhas foi descoberto na Austrália, envolvendo uma abelha sem ferrão. Embora pouco divulgada, essa relação é conhecida desde 1995 e foi chamada de melitocoria.

A relação de dispersão ocorre entre um tipo de eucalipto (Corymbiatorelliana) e a abelha sem ferrão Tetragonula carbonaria. A árvore apresenta pequenos frutos secos em forma de cápsula e, em seu interior, encontram-se sementes com pequenas gotas de resina grudadas. A resina é um material muito importante para a construção dos ninhos e defesa das abelhas sem ferrão. Quando as abelhas vão coletar a resina dentro desses interessantes frutos, acabam levando as sementes junto. As sementes podem ser descartadas antes de entrar no ninho, ou ser levadas para o interior do ninho e colocadas nos depósitos de resina. Posteriormente, essas sementes são descartadas como lixo pelas abelhas. Nesse processo, as sementes não são danificadas e podem germinar, sendo transportadas até 300 metros de distância da planta-mãe.

Tetragonula
Fontes: http://weeds.brisbane.qld.gov.au/weeds/cadaghi e Wallace e Trueman (1995).Frutos de Corymbia torelliana e operária de Tetragonula carbonaria, levando resina e uma semente de C. torelliana na corbícula.

 

Essa parceria é benéfica tanto para a árvore, que tem as sementes dispersadas, como para a abelha, que obtém a resina. Além disso, parece bastante específica, sendo que meliponicultores relatam que as abelhas coletam mais resina dessa planta do que de outras árvores do local. A partir dessa observação, pesquisadores da Alemanha e da Austrália investigaram se as abelhas realmente preferem essa resina e o que atrairia as abelhas até esses frutos (Leonhardt e colaboradores, 2014). Para isso, coletaram resina dessa espécie de eucalipto e de três outras árvores que também produzem resina coletada pelas abelhas. Pequenas porções dos quatro tipos de resinas foram apresentadas para colônias de T. carbonaria, por determinado tempo. Em todos os testes, as abelhas pousavam e coletavam mais vezes resina de C. torelliana do que de outras árvores, indicando uma clara preferência. Além disso, foi feito um estudo químico dos componentes da resina, utilizando a técnica de GC-MS (cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa), que permite identificar todas as moléculas presentes em uma substância.Assim, seria possível saber se algum composto volátil (um cheiro) ou vários em conjunto atrairiam as abelhas até a resina. Em vários testes minuciosos, os pesquisadores observaram que a atração das abelhas só ocorria com um extrato preparado com toda a resina, ou seja, com todos os compostos presentes. Sempre que alguma mudança na composição era feita no extrato (adicionando ou retirando compostos), as abelhas deixavam de ser atraídas, mostrando uma alta sensibilidade das abelhas aos compostos voláteis.Outros estudos mostraram que a resina desse eucalipto possui maior atividade microbiana que outras resinas e é um ótimo repelente para o besouro parasita Aethinatumida, comum na Austrália, o que pode explicar essa alta preferência pelas abelhas.

Perfil químico da resina produzida nos frutos de Corymbia torellliana, cada pico indica um composto diferente.

Fonte: Leonhardt e colaboradores (2014).

 

Mas será que esse tipo de parceria só ocorre na Austrália? Estudos mostram que não, sugerindo que mais espécies de plantas podem apresentar dispersão de sementes por abelhas. No Amazonas, o mesmo comportamento foi descrito para Melipona seminigra merrillae e Melipona compressipes manaosensis, dispersando sementes do angelim rajado(Zygia racemosa). Essa linda interação pode ser vista na figura abaixo.No mesmo local, a dispersão de Coussapoaasperifoliamagnifolia, que tem frutos resinosos e com cera, é realizada por diversas espécies de abelhas sem ferrão. Isso sugereque mais casos dessa interação podem ocorrer no Brasil e em outros países e mostra mais um exemplo da forte relação unindo plantas e abelhas.

Melipona

Fruto de angelim rajado recém-aberto expondo as sementes com resina e operária de Melipona compressipes manaosensis carregando resina e uma semente em sua corbícula.

Fonte: Bacelar-Lima e colaboradores (2006).

Partamona

Ninho de Partamona epiphytophilae muda de Coussapoa asperifolia magnifolia.

Fonte: Nunes e colaboradores (2008).

sheina

Sheina Koffler é Bióloga, doutoranda em Ecologia pela Universidade de São Paulo, e colaboradora do SOS Abelhas sem Ferrão, que gentilmente redigiu esse texto para a seção ” Abelhas na Ciência” de nosso Blog.